Uma das tendências do mundo globalizado, e que não é exceção no Brasil, é o desapego das tarefas manuais, gradativamente substituídas por processos automatizados. Não é novidade pra ninguém: o tempo tornou-se escasso. Então, o que era feito de modo quase que artesanal, acaba sendo acelerado ao máximo.
Nossos hábitos, mesmo os mais simples, refletem esse conceito. Vivemos do pré-cozido, do pré-montado, do produto final.
Para uma parcela considerável da população, já virou luxo sentar-se à mesa e almoçar tranquilamente, ou fazer a própria comida por exemplo. Você já pensou nisso? O homem pós-moderno não faz a própria comida.
Nossa forma de se relacionar também muda. Não dá tempo de conversar pessoalmente, então temos as redes sociais e os comunicadores instantâneos – onde se fica invisível quando é comodo. E com isso diminui-se o contato visual, as expressões, o toque, a voz e tudo o que não pode ser substituído por um conjunto de códigos.
Contudo, é a relação do indivíduo com o trabalho, que talvez represente melhor esse cenário. O perfil do profissional de hoje mudou essencialmente. A passos largos, aquele que antes se ocupava em apenas uma etapa da produção precisa hoje conhecer todo o processo. Ser dinâmico e versátil, ter visão holística.
Com o tempo, o leiteiro, a costureira, o padeiro e o sapateiro vão cedendo lugar ao webdesigner, ao operador de telemarketing, ao técnico de petróleo e gás e se tornam um tipo de profissional em extinção. Ou você já ouviu, na geração atual, alguém dizer que tem vocação pra sapateiro? Até porque se a roupa rasgou ou o sapato quebrou a gente compra um novo.
Vai fazer falta o profissional que carregava em si uma alta carga moral: do trabalho que torna o homem digno; que trabalhava por vocação, ainda que vocação pra sapateiro.
Vai fazer falta a geração que almoçava em família; que cultivava plantas e conhecia pássaros; que sabia que um rato era só um rato; que pegava a fruta do pé; que costurava para os filhos e que passava mais tempo com eles; que ainda tinha heróis e referências.
Mas apesar do homem pós-moderno não saber sequer diferenciar uma banana prata de uma banana-d’água, cabe a ele, digo, a nós, os desafios da herança consumista: tornar real a sustentabilidade, mudar o modelo de consumo e dizer pra onde vai o lixo do planeta.
Para tanto, não basta apenas ter tecnologia. Precisamos resgatar dos nossos avós: a paixão, o caráter e a vocação pelo que se faz.
2 março, 2010 no 16:53
[...] *Felipe Calegario é estudante de administração e professor de informática.Post originalmente publicado em http://ichtusgate.wordpress.com/2010/02/23/o-que-vai-faltar-a-geracao-y/ [...]
27 fevereiro, 2010 no 16:25
Muito bom texto.
E neste período tão confuso e de mudanças de paradigmas ainda perdura um certo “saudosismo” do tempo de nossos pais e avós, que sempre termina com a expressão “naquele tempo é que era bom” mesmo sem ter vivido tal tempo. E o curioso é que nossos pais, com o passar do tempo, sempre se referem à sua época como muito boa, apesar de existir alguns conflitos de gerações – mas à época com um respeito que hoje torna-se até motivo de chacota.
Quem permanece naqueles antigos modelos têm certa dificuldades em lidar nesta sociedade – da informação? do conhecimento? do entretenimento? pós-moderna? Um exemplo bem claro disso é a instituição “escola”. A pedagogia pede professores com o perfil do “profissional do século XXI”, ou seja, dinâmico, flexível, criativo, etc. Mas a própria organização escolar (currículo, gestão, carga horária) continua, com pouca diferença apesar de LDB e PCN’s, a mesma de 30, 40, 50 anos atrás. É conhecida a piada de um sujeito que foi congelado na década de 1920 e ao despertar no ano 2000 viu tudo muito diferente, menos um local: a escola.
Precisamos resgatar aqueles valores universais, os bens infinitos – e não os bens finitos – mas será que ainda há tempo e disposição para isso?
Um abraço!
31 julho, 2010 no 20:10
Voce depois de ler essa menssagem parece que esqueceu de um detalhe, as crianças de ontem embora vivessem na ditadura militar, não só em nosso país, mas em muitos ao redor do globo, tinham respeito pelos mais velhos, acreditavam e valorizavam o conhecimento, o ser alguem de verdade, gostavam de procurar saber mais, tinham curiosidades a respeito do universo, da própria vida, de como os mais velhos conseguiam viver sem as comodiades da então época “passada”. Hoje, essa garotada, não respeita não só os mais velhos, mas os professores, a policia, a natureza e os próprios amigos, não se fala olhando nos olhos, não se pedem perdão, se agridem mutuamente e ferozmente, perderam a razão, achando que tudo não terá consequencias. É acho que essa nova geração ou terá de ser iluminada de alguma forma, ou teremos um futuro tenebroso, porque a única coisa que importa para essa geração é ser melhor e mais tecnológico que o outro, amizades são riscadas como se tirassemos a casca de uma maçã. Sei lá, pode parecer sinistro, mas é o que vejo, não só nas ruas, mas no contexto geral dessa geração. Concordo plenamente com o autor do texto, parabéns Felipe.